Domingo, Junho 26, 2011

O ponto é...

A grama perto da água é sempre mais brilhante e mais viva; e toda nuvem tem uma borda prateada para lisonjeá-la. O ponto é: ser livre e amar. É isso o que importa; é por este único motivo que estou aqui neste mundo, aprendendo o tempo todo a ver o detalhe que faz toda a diferença.

Quinta-feira, Janeiro 07, 2010

Let it flow

Just got to let it flow. Under your soul and our Dreams. Above all our destinies. Let it flow and everything is gonna be alright.

Pra sempre. O espírito livre e a certeza de que tudo, tudo encontra sua maneira de coexistir.

The boy that once you loved, well, he’s going away. However, it is not going to be forever. Actually, he won’t be distant along all his life. It’s certain that you will meet each other someday, - probably when the sky is gray and the clouds are heavy.

Embebedemos nossos espíritos com o mais puro vinho de cor lilás. Nos acordes divinos da música que entra pelos ouvidos, tomando todos os átomos do nosso corpo. Nenhuma palavra sai dos seus lábios. Em nossos jogos mentais, as mais longas, belas e complexas conversas acontecem a todo momento.


Posso ver claramente: let it flow.

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Análises da não-análise: os primeiros passos em direção à Lana

Lana passava todas aquelas tardes de verão se colocando naquelas páginas multicoloridas dos livros que tanto detestara um dia, e, hora ou outra, em meio a uma bela citação em francês, percebia o quão irônico o destino era – como se não pudesse guiá-lo a lugar algum, estando apenas à deriva de seus pensamentos totalmente perdidos. Irritava-se constantemente com a mania fútil daquelas pessoas que lhe mandavam todo aquele amontoado de mensagens supostamente sábias, mas que ninguém de fato jamais seguiria. Em tempos modernos, não se sabe quem é quem ou o que é o quê – e, convenhamos, já se soube algum dia? Ah, sim, Lana deveria falar de amor hoje – para ela, o assunto mais complexo e, ao mesmo tempo, mais clichê (embora não tivesse a mínima idéia do que a tão repetida palavra “amor” significasse, comparando-o a alguma coisa ou monstro que jamais pudesse ser seguido). Tinha sérios receios sobre o assunto, afinal, sempre acreditou no não acreditável, guardado em seu muro de sucessão de derrotas. Lana era jovem, não muito atraente, mas dotada de uma energia única e intransmutável que se refletia em seus olhos amarelados pelo dom incomunicável de seu espírito. Não sabia muito sobre a vida também, queria apenas vivê-la. Até então, tudo parecia estar envolto em uma espécie de mistério, que aos poucos iria se revelar. O mundo de Lana era como um incêndio com braços e braços confusos, procurando alguma maneira de libertar-se e sentir, vez ou outra, a sensação de completude. O eco de seus demônios era expelido pela fumaça do cigarro e seus olhos pertenciam ao nada absoluto, envolvendo-a em uma espécie de transe, enquanto o blues acariciava seus cabelos em forma sopros quase divinos. Lana, finalmente, viu-se em suas palavras: amar é não pertencer a ninguém além de si mesma. Isso até que a próxima definição a mudasse completamente.

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Nota da autora: sim, sei que estou meio enferrujada nas escritas. Ok, sei que estou completamente por fora dos dons do verbo. Mas isso importa?

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Procuro

Procuro nas mãos vazias algo que me faça lembrar de minha real existência, de algo que me traga real alegria, - ou ao menos os restos dela - restos de seus momentos, MEUS momentos. Agora, as mãos se perdem e não conseguem mais criar raízes sobre a terra, criando-as no ar, livres no espírito e acorrentadas às doses diárias de veneno injetadas a sangue frio.
Procuro no resto de que sinto ser liberdade e viajo por entre nossos planetas, apaixonando-me pelos seus cabelos e vou espiralando sua alma como um dente-de-leão: sem rumo - mas consciente de seu destino. Vejo não mais com os olhos o que realmente reluz, e, em algum momento de lucidez, a verdade carrega-me a esperança em seus braços - cansada, triste, porém renovada, sob efeito de catarse.
Procuro esquecer-me do porre de cada dia com outro porre, - desta vez lúdico - tornando-me mais uma entre tantas outras viciadas pelo prestígio, pelo esquecimento.

Procuro. Há apenas espera?

Talvez seja esta a resposta: espera. Talvez.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

O que as palavras das músicas não podem dizer

Eu falo com os olhos não ignorantes e ingênuos, mas não maliciosos - e sim cheios de astúcia, gabando-se por pensar conhecer uma pequena parte desse universo -, numa espécie de jogo mútuo em que não há vencedor. Porque tudo se mistura e vira uma coisa monocromática, mas a essência permanece pura, com muitos cheiros diferentes.

Domingo, Setembro 14, 2008

Tentando novamente

Só posso chegar à conclusão de que sou uma criança brincando dentro duma caixinha de música, me embebendo em suas linhas verdes como um lago de absinto, mergulhando em tolice e em erros joviais - vivendo mesmo sem respirar, sem pontuação sem caminhar; apenas correndo nessa grande bola de fogo que corre mais e mais e já não se sabe quando ela explodirá e já não se sabe quando as músicas acabam e quando os garotos começam a dançar com seus sapatos de palhaço gigantes, seus cabelos desgrenhados e o resto todo.

hello, i'm good for nothing - will you love me just the same? -.

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

O poeta das ruas

Em passos longos e apressados, eu ia à escola na manhã de um dia comum, um dia como hoje. Um escritor me abordou e mostrou-me uns versos escritos em marcadores de página - estes eram lindos, pintados a guache e escritos à mão. O poeta, que tinha uns quarenta anos ou mais, usava um chapéu de palha um tanto quanto esquisito, mas bonito em sua esquisitice. Ele me mostrou os seus versinhos e eu fui lendo apressada, meio que desligada de tudo, dos poemas, da minha vida em si - estava focada apenas em ir àquela maldita escola. Aqueles poemas eram realmente bonitos, simples na essência daquela boniteza toda. Enquanto os lia, fui só resmungando uns sorrisos bobos enquanto o escritor os mostrava aquelas letras embaralhadas a mim e enfim percebeu meu desdém camuflado; e soltando um sorriso ele disse "ooora, menina, mas você não tá lendo nada!"; e como que de súbito nos separamos, rindo, sabendo que nunca mais nos veríamos novamente. Talvez em algum poema, talvez não.

Nunca, NUNCA deixem um poema escapar de suas mãos.

Domingo, Julho 13, 2008

Conversa à la "cumadis i cumpadis": o que tem acontecido nos últimos meses

Minhas conversas com o silêncio têm sido cada vez mais longas. Conversamos sobre tudo, incluindo os fatos e acontecimentos dessa vida, cada vez mais insólita: – tudo se passa em lentas cenas – a moça chorando enquanto atravessa a rua e fala ao celular, as garotas do colégio comentando e fazendo o blá blá blá todo, os garotos todos pelos quais me apaixonei indo embora (e a paixão se debatendo entre algo comum ou então algo cósmico ou algo assim que não sei explicar muito bem), o piano que rouba minha alma, o lago que já secou, tudo, tudo, tudo, o nada. Já me é comum chegar à certeza das vertigens, existências e inexistências, de me abandonar completamente enquanto observo tudo, tudo, tudo ao redor , e, talvez, sendo tudo isso algum reflexo interno.
Não há mais tempo de respirar. Apenas sinto. Sinto que o céu se aproxima de mim, e que o vento rouba um fio de meu cabelo, que subitamente cai na grama, onde, finalmente, as formigas usufruam-no e depois de um morrem e depois e depois e depois...
As letras já não são mais jogadas no papel: é o lápis que desenha e transborda cores vivas dentro de um gato roxo maluco; ou então é a grafite que, incerta, passa sobre a silhueta de um personagem, que transparece em um palco e não se entrega totalmente a ele mesmo. Nada mais é atrasado, nada é melhor ou pior, nada se faz ou desfez, nada foi criado. Tudo apenas é, em sua mais sublime e cortês existência, em sua mais pura essência.

Quinta-feira, Março 20, 2008

Pequeno desabafo

Aquela imagem que soa gracisamente e pernumbrava pelas noites de agosto já se desfez e agora fico imaginando o que será desse jogo de amor e ódio; o que será dessa indecisão já decidida. A cada dia que acordo todas as imagens se juntam; e me vislumbra os olhos aquela senhora muito magra e corcunda que segura os livros religiosos com toda a força do mundo, cuja sombra intercepta a velha gorda que está carregando trambolhos para algum lugar; e a moça loira que está chorando enquanto fala ao celular já não me assusta; nem o garoto que tem medo de olhar a fundo meus olhos. Já não me incomodo com a indecisão cotidiana, já não me incomodo com esperar longos anos por algo que não é como uma simples equação; a física quântica é mais simples do que se imagina. Digo, tudo se movimenta numa harmonia tão imperfeita que ela agora passa a ser perfeita. Enfim, são só palavras de desabafo, mesmo. Agora o que resta é esperar.
Mais uma vez.

Sexta-feira, Outubro 19, 2007

Encontrando a felicidade debaixo da cama

Não é a primeira vez que me deparo com o desdém da vida, nem a primeira vez que esparramo meu corpo sobre o chão de madeira para me deslumbrar com o maravilhoso mundo de debaixo da cama. O pó revela a história de tudo que está ali: a árvore, que morta, virou madeira, que por sua vez virou um segmento, que agora é um pedaço de minha cama. E isso me faz imaginar que daqui alguns anos esta madeira não estará mais lá e será apenas uma casca envernizada velha, escura, jogada num canto ou alagada sabe-se lá onde. Tocando com a ponta dos dedos este novo mundo, eu também sou uma árvore – considerando que todas as imagens de minha vida estão intactas, ou seja, não mudei nada, nada mesmo –, com a única diferença de que estou aqui, escrevendo sobre como encontrar felicidade debaixo da cama.

Daqui algum tempo não estarei mais correndo pelos cômodos da casa, pulando no sofá, cantando alguma música dos Doors ou dos Beatles, fazendo gracinhas para chamar a atenção; muito menos deslizando os dedos num pedaço de plástico ligado a um amontoado de metal e fios. E isso é uma das coisas mais lindas do mundo, de um modo ou de outro. Mas nada vai mudar: sei que minha vã presença se prendeu a este lugar; é uma parte de mim. Então tento me dividir em pequenas partes simplesmente para colocá-las em vários caminhos distintos, só para depois ver se restará alguma pequena lembrança, um vestígio de alegria transformado no conforto de estar debaixo da cama.

Eu sou uma parte disso. Posso ser o monstro de debaixo da cama ou o pó que lá se esconde durante anos, esperando para ser retirado. Ou o caminho que me faz lembrar que nada disso é real, que é apenas uma simples filosofia de como ser feliz debaixo da cama. Ou não. Enfim.

Terça-feira, Agosto 14, 2007

Não sei escrever

Sempre que começo a escrever, as letras negras grudadas no papel branco me amaldiçoam e me jogam a certeza de que não sei escrever. Elas parecem ter tão imperfeita ordem e são únicas com suas imperfeições, mas não – não agora, agora eu não gosto de vocês, malditas letras – e fico murmuriando “Vá, Carmem Luisa, um dia você voltará a escrever bem” ( ainda que esta frase seja incerta, já que não sei se soube escrever algum dia).

Agora pense comigo, como se estivéssemos cortando morangos podres, tudo bem? Preste atenção, isso é uma filosofia e tanto (!): você corta a parte com fungos e a coloca no pedaço de papel, que também irá para o lixo. A parte aproveitável é colocada em um copo, e quando o mesmo está lotado de restos dos morangos sobreviventes, você tenta fazer um malabarismo para para mantê-los lá sem precisar pegar outro recipiente. Entenderam como é complicado não saber escrever ou preferem ficar cortando morangos?

Acho que vou ficar cortando morangos por algum tempo ainda, não sei. Ninguém lerá essa merda, mesmo.

Segunda-feira, Julho 16, 2007

Texto sem importância

Não é de hoje que me dou as tardes a ouvir um bom tango, jazz ou um bom blues, mas nos últimos dias venho a me perguntar a importância de cada nota musical em cada música ouvida. Algo assim acontece quando você entra em um ônibus: vê todas aquelas pessoas moribundas, loucas de desejo ou de infelicidade, ou apenas pensando nas coisas da vida. E me pergunto o porquê de existir um sentido para a vida, se a música não acabou e se as luzes ainda não se apagaram.

Digo, são tantos corpos aglomerados e tantas palavras ditas “só deus pode fazer o que pastor André fez! Mas fazer o quê; cada um tem sua fase de iluminação, e agora o senhor não está para o pastor André, infelizmente!”: não há sentido algum em dizê-las ou até mesmo escutá-las, assim como uma longa e cansativa história, sem clímax e sem fim: um desdém qualquer. E os pés cansados chegam em casa e se libertam dos sapatos apertados (ou seriam sapatos pequenos?) e assim, puff, um gemido gutural sai pela boca do gigante transeunte. E se a música não acabasse e se não houvesse mais fim, certamente acontecimentos muito interessantes viriam a ocorrer. Por isso é que não me dou o dia todo a ouvir um bom tango, jazz ou blues. E é assim que a música acaba, sem clímax algum.

“When the music’s over, turn out the lights” - The Doors


Em breve o "Textos Miseráveis" não terá mais esse nome e eu voltarei a escrever aqui (ou não).
Um abraço a quem ainda tiver paciência para ler isso aqui.

Sábado, Novembro 25, 2006

Serpente

Em meio a conversas, barulhos, a multidão de gente e de carros, em meio ao céu que se perdeu pela avenida, onde prédio resistiu os longos anos cinzas. Uma avenida onde os prédios se estendiam como uma serpente alegre e sem cor. Em meio a uma pausa passa-se alguma história, tocando o tempo físico calado ao longo dos anos.
Talvez fosse um homem simples, de meia idade, ninguém sabia. Tinha horários pontuais e sempre era confundido com um personagem de desenho animado, pelo simples fato de que seus olhos expressavam um nada infinitamente inexplicável.
Esticou os braços e notou, em suas mãos, como seus dedos eram finos e longos. Na cama, um corpo cansado que era ao mesmo tempo frágil e longo. Como de costume, a barba era rala, conforme a moda da época indicava. As feições faciais eram profundas, aproveitando cada linha para revelar seu mistério: tinha um rosto sem expressões. De algum modo, ele poderia sorrir em qualquer ocasião, a menos que não tivesse permissão vinda do rigoroso controle.
Algum barulho guardado emitindo o som da liberdade – como o som era doce! Li-ber-da-de! – que corria em meio ao veneno de suas veias. Uma rebeldia calada, rasgada e queimada por nada mais, nada menos do que o próprio eu. Um nada a vagar pelo espaço, ocupando metros quadrados e ouvindo os sons incessantes.
Cantando a poesia e a transformando em prosa, abriu os braços e sentiu o nada se transformando em tudo. Nu, com o corpo iluminado por um único feixe de luz cortante e contrastante contra si mesmo, cortou os males e os jogou pela janela. Mas algo ainda o prendia a terra: seus pés. Poderia ser Aquiles ou algum outro mito, poderia ser deus e o diabo para realizar tamanha tarefa. Precisava se livrar do peso corrosivo guardado ao longo do tempo. Já não andava como nos tempos de extrema juventude e se cansava da grande serpente de prédios iguais. Em meio a uma divindade, ou ao pecado, embriagou-se e deixou a noite passar, agora silenciosa.
Deixou a porta aberta e caminhou pela serpente como se fosse passarinho.

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Ponto e vírgula, Doze de Outubro

Amanhã é o dia dos lunáticos - embora os dias sejam contados sem o porquê adequado -, dia dos pequenos seres humanos habitantes deste planeta. Estas criaturas fazem inúmeras chantagens a fim de ganhar doces, brigadeiros e afins para no final do dia ter uma diarréia. O comércio contrata novos funcionários para conseguir estabelecer os limites da demanda dos consumistas, - como numa selva, onde o animal mata o outro para desfrutar do melhor sabor da carne - . Os consumidores compram demasiadamente para que seus pequenos diabinhos se alegrem e digam um terrível "te amo, papai". O poder abusivo dos comerciais de televisão fascina e manipula nossos pequenos com doces sem gosto; e os tão esperados brinquedos, objetos de desejo, serão quebrados daqui a um ou dois meses.
Com uma naturalidade esplêndida, esse indivíduo cresce e começa a tomar decisões sociais. Essas decisões não passam de reflexões feitas à noite, em frente à televisão, enquanto o nosso querido indivíduo come seus grudes noturnos. E usam a desculpa de que não têm assunto a tratar no trabalho, e os desgraçados ainda sorriem após ouvirem piadas de escândalos políticos dos outros colegas canalhas. Não ter nada para fazer é a pior desculpa humana para fins infundados. Ele também aponta junto à sociedade questões inverossímeis sobre o quão a novela das nove está bonita e efetiva no cotidiano. Ele é inteligente porque lê livros de auto-ajuda e está sempre equilibrado socialmente, economicamente e espiritualmente.
A nostalgia presente no indivíduo, o indivíduo vítima da gordura cerebral.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Sobre alfazema e ciano

Eu gostava do lugar em que vivia. Lá havia crianças, flores, jardins, o cheiro de alfazema impregnado nas casas. Gostava de minha vida. Eu penso que, se havia lugar no mundo em que eu fosse feliz, era naquele vilarejo. Eu, como todo bom moço da época, tinha uma namorada. Seu nome era Giovanna. Não sei o porquê, mas achava este nome lindo. Ela tinha os lábios desenhados cuidadosamente e suas mãos eram delicadas como uma pele de seda. Não a amava, mas eu adorava aquela paixonite. Eu estudava durante a manhã, à tarde trabalhava e à noite namorava minha doce Giovanna. Todos os dias eram uma rotina, todos os dias eram diferentemente iguais. Até mesmo porque eu gostava de imaginar como seria o ontem e trocar a ordem dos acontecimentos. Eu conversava com meus amigos sobre as perfeições físicas das meninas, e - como sabes -, falávamos de tudo, tudo mesmo.
Toda esta felicidade acabou quando meu pai faleceu. Minha mãe ficou tão abalada que acabou cometendo o suicídio. A única coisa que me prendia àquele vilarejo infeliz era a doce Giovanna. O cheiro de alfazema na pele de Giovanna e seus doces lábios rosados me faziam lembrar dos tempos de infância. Me imaginava correndo atrás de um bichano qualquer, quando eu tropeçava e caía a chorar. Certo dia encontrei Giovanna com outro rapaz. Foi o suficiente para me fazer cair, chorar e correr como uma criança.
Quando completei vinte e dois anos, fui morar na cidade grande. Conheci um novo mundo, fascinei-me com tanta beleza e as grandes construções pareciam voar pelo céu acinzentado. Nunca mais senti o doce e maravilhoso cheiro de alfazema, embora não sentisse saudades do vilarejo e, - se me permites dizer -, da terrível Giovanna. Agora eu era empregado de um senhor de idade, que consertava relógios. Ele era muito simpático e todo ano, no natal, me chamava para a ceia. Eu nunca gostei do natal e todo aquele amontoado de pessoas, mas ele era um velho especial. O bom do trabalho na antiga loja de relógios é que eu nunca perdia a hora. O meu mundo era cercado de ponteiros e deveres. Eu entrei para a faculdade e conheci novos amigos, mas estes não chegavam a ser como meus velhos companheiros colegiais. Eu quase não tinha tempo para viver, mesmo com tantos ponteiros e facilidades. O tempo passa.
Ontem perdi o emprego. Tenho trinta e seis anos e o velho que me empregou há tanto tempo morreu semana passada. Sua filha mais velha resolveu fechar a loja e aqui estou. Preciso encontrar algum lugar para dormir minha manipulação. Agora bebo uísque e tenho medo de me tornar um viciado, mas este medo não corrói as lembranças da felicidade. Abro a porta do elevador e subo até o último andar. Encontro o ciano de seda de minha doce Giovanna. Subo o último degrau para observar os trauseuntes lá embaixo. Tantos carros, tantas pessoas parecendo formigas sem rumo. Um desequilíbrio seria necessário para a gravidade entrar em atividade e fazer um corpo estatelar pela calçada. Pois bem, assim será.
Neste momento uma brisa com cheiro de alfazema veio me interromper. Era Giovanna. Seus olhos eram fixos em mim, e de qualquer modo, ela pôs-se ao meu lado. Senti vontade de fazê-la cair e chorar como uma criança. Neste momento, o meu doce ciano azul estava posto à calçada e os transeuntes faziam uma roda de curiosos para saber quem era o ser cruel que faria tal absurdo.
Fui a um bar e pedi uísque ao garçom. Lembrei-me de que não tinha tanto dinheiro e, portanto, cancelei meu pedido. Preferi um copo d'água para me embebedar. Observando aquela substância pura, lembrei-me dos lábios mais doces existentes. Acabei desmaiando em cima do miserável copo, cheio de água.
- Jovem, acabe logo de arrumar estes ponteiros. - Disse o velho.
- Estou indo. O que você faria se pudesse se afogar em ciano?
- Ora, que pergunta mais tola. Termine logo. Até mais. - Retrucou e de despediu.
Hoje sou um homem normal e isso é meu pior pesadelo. Não sabem quem matou Giovanna, e eu também não sei se essa história existiu. Só sei que sempre me lembrarei do cheiro de alfazema e do ciano de uma certa mulher.

Sábado, Setembro 16, 2006

Em um lugar qualquer

Era um fim de tarde como outro qualquer, prestigiado pelo engarrafamento dos carros e pelas crianças saindo da escola. Verão, o calor incessante fazia os poros da pele liberarem o líquido atordoante do cansaço. Um pedaço qualquer de calçada esburacada servia para aliviar qualquer nostalgia. Um atalho flutuante para levar os pés cansados à casa. Qualquer coisa refletida à lâmpada estroboscópica, qualquer objeto sem qualquer utilidade seria observado por qualquer ser. Os sapatos velhos usados diariamente pelo mesmo homem e indo aos mesmos lugares todos os dias de todos os anos.
Vibrações de cordas vocais, vibrações de um sentido foram libertas ao pôr-do-sol do céu alaranjado. Um filme qualquer poderia ser a vida real, quem sabe. Então ela o fez assim, como em um filme. Secou a pele com um lenço qualquer em qualquer parte do rosto. Abriu o livro, leu duas palavras quaisquer e o fechou. O relógio marcava seis horas, os ponteiros opostos sem sentidos manipuladores. Levantou-se e foi caminhando aos passos preguiçosos até algum lugar e bebeu alguma coisa. Apanhou uma magnólia da árvore e a pôs nos cabelos ondulados, iluminados pelos raios solares. Um dia perfeito, ou imperfeito, quem sabe. Foi a pé para casa e arrancou os sapatos desajeitados para aliviar qualquer coisa que a incomodasse. Saciou sua sede com os cristais transparentes e preciosos do gargalo. Viu qualquer porcaria na televisão e a desligou.
Sentada com os pés juntos, apoiada em curvatura sobre as pernas, olhou para o chão e ficou imóvel para qualquer ocasião. Ela era o sol de um sistema solar que a observava em um círculo de planetas inimagináveis. Milhões de estrelas e galáxias distantes observando um único ser que ofegava na respiração. Milhões de astros guardando surpresas, parando o tempo em um lugar qualquer. Guardou o lenço na bolsa e terminou de ler o livro.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Desespero do sono eterno

Ele era um homem baixo, nervoso, indiferente dos outros homens normais. Trabalhava como todos os outros, em seu desespero familiar guardado nos céus da tolerância. Era fácil encontrar um dia de sua insana vida, porque todos os outros continuariam na mesmice. Casado, filhos, um trabalho biológico. A esposa envolvida em novas castas maravilhas se afastava para o submundo do inconsciente quando a casa desmoronou sobre suas cabeças ocas. Ele retratou a infelicidade olhando-se através dos tijolos das paredes, comendo a cal viva e deixando as entranhas perfurarem o ódio da monotonia formadora de seu sangue monocromático. Saiu mais um dia de seu trabalho, foi a um bar qualquer beber para esquecer os deveres que tanto o atormentavam, esquecer a vida que não era feliz para ninguém. Atirou qualquer pedra sobre o lago esperando que não tivesse esquecido como se fazia para fazê-la pular na água. Esqueceu. Mais alguns passos tortuosos e estaria em casa, sua tão doce e estúpida casa.
Chegou em casa tão sóbrio quanto uma magnólia e sentiu o vento entrelaçando seu rosto, passando lentamente por sua barba e continuou a andar entre as folhas caídas que giravam. Tropeçou sobre a rede da entrada, pôs a funcionar a lareira da sala. Abriu a porta e sentiu o cheiro puro dos cabelos negros envolvidos nos pequenos ombros de sua esposa. Beijaram-se em agonia para não relembrar a desgraça do tempo esquecido. Ligou a TV, babaquizou-se e foi dormir. No sono infértil, áspero e nocivo, descobriu novos mundos verdes e foi apenas esta a vez que não acordou mais. Nunca mais.

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Céu e inferno

Silencio o canto com as mãos e o jogo pela máscara ao mistério. Logo que se formaram as rochas, o vidro as substituiu e o apocalipse começava. O céu e o inferno se juntaram na calmaria furiosa, vivendo cada dia a amargura dos doces sonhos perdidos. Olhava-se ao redor do nada e se enxergava a iluminação intocável pelos dedos e translúcida pelas mãos. As estrelas se ofuscaram e o sol apagou. Tudo era imenso, vasto, descoberto, e eu, o verme, observei tudo, átomo por átomo. Vozes gritavam em minha lembrança. Perderam-se magnólias, rubis e violetas ao cessar o terror. A todo tempo, jasmins eram arrancados e usados à pele do corpo em perfurações para amenizar a dor. Os desejos foram tirados de seu poço e jogados ao relento do ar, a navegar pelo céu. O eterno padecer do brilho vitorioso impedia as águas de escorrerem rio afora. Era o fim contado por quem viu os olhos azuis perdidos do destino.
A rosa desenhada no céu congelava, vermelha e brilhante, contemplada por meros seres de agora uma pura realidade, que foi quebrada no apodrecer.
O grande lago perdido da solidão se acalmou com o término da explosão e surgiu-se da arte a mais nova realidade. Nada ao nível das estrelas é viável ao poder, porque implica problemas resolvidos pela mente por nós perdida.
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PS: Que porcaria de texto! Só para não ficar sem postar.

Sábado, Agosto 05, 2006

Flores fúnebres

Na velocidade da luz o som se fez, desbalanceado-se das leis e do tempo. Neste momento era criada a mais doce e tênue das criaturas, cuja beleza se expandia em um sorriso coral, navegado pelo submarino transparente. Então muitos fantasmas surgiram; animália, vegetalia, monera, protista e fungi se desordenaram causando um fim trágico. No palco do teatro, os artistas fizeram a mais linda peça, digna de tomates arremessados pela platéia; que entristecem o palhaço, e hoje se vê refletido no sorriso coral, de onde nunca saiu. Então vocês inventaram as horas e as marcaram no relógio, este que me diz a hora de viver e morrer. Nós fomos manipulados e jogamos maravilhas no lixo, mas a culpa é da mera coincidência do tempo.
Ela abriu os olhos e sentiu o tenebroso amor maternal pela primeira vez, achando o quão obsceno era tudo aquilo. Fizemos a luz do dia tornar-se rubra, mais do que poderíamos fazê-la. Porque todos os dias se repetiram rubros e na velocidade da luz, a criatura de sorriso coral teceu um novo amanhã.
O bebê chora, assustado com uma admiração tão grande. Há um barulho intenso lá fora, talvez um bombardeio, e toda essa fria luz branca o faz assustar-se em meio aos corpos derramados no chão. Redesenha-se então a criatura de sorriso coral e a transforma em mera existência. Desenha com os dedos curtos e inseguros um novo mundo, desenha com a precisão da arte e a faz de átomos até o recomeço.
O sorriso coral se apaga, deixando um novo dono do mundo. Então o artista apaga todas as faces; abrindo a nona porta para sair de casa, vê a luz rubra e engata sua nova bicicleta para o infinito. Tantos montes de corpos sem rostos, barulho silencioso; o doce menino peca com a ira e termina com o tempo do fim.
Na solidão da falta de sorrisos, o menino desenha com suas incertas e habilidosas mãos a criatura de sorriso coral e a faz sorrir eternamente, mas só para ele. Roubam seu sorriso e o transformam em idiotices como contar o tempo e dizer a hora de morrer. Bilhões de anos se passaram, dizem que até morreu, quem diria. Alguns ousam dizer que está vivo, andando cabisbaixo por aí, chutando as latas na calçada e matando no paraíso novas pessoas com novas armas.
Hoje, depois da revolução dos bilhões de anos, roubamos sorrisos por aí, cada um com maneiras diferentes, mas sempre os levamos a uma sala e o transformamos em coral. Todos falamos a mesma língua, temos um novo mundo e conversamos com quem vocês costumam chamar de “extraterrestres”.
O velho contempla com o último olhar sua pintura, morre e apodrece ali mesmo. Levem-no daqui, o odor é insuportável. Deixo chover as últimas flores fúnebres no cinzeiro, onde o criador da revolução foi esquecido.

Segunda-feira, Julho 31, 2006

Strangers in the night

Apressa-se no banho e penteia os embaraçados cabelos; veste-se com um negro brilho e ilumina o pálido rosto com o rubro batom nos lábios solitários. A pé pelas estreitas ruas encobertas por lama e paralelepípedos, se cega com as luzes incessantes em sua própria rua da solidão. Passeando com o cheiro de perfume do papel velho que se mistura, dá graça ao frio ar de um inverno noturno. Dança na chuva inexistente e se alegra em cantar o único refrão que conseguiu decorar. Risos espalhados e desmontados em quebra-cabeças se juntam à luz da pele pálida, que são interrompidos pela distração das buzinas dos carros.
Acena para um desconhecido que lhe rouba um sorriso, e sabe que aquele momento será único. Espera na fila pelo espetáculo e encontra os castanhos e desconhecidos olhos que se separaram em uma fração de segundo pela lua cheia. Dá-lhe vontade de perguntar seu nome, não, melhor não. Apodrece na poltrona cinza e esquece o quão chorar o desencontro dói. O vê pela última vez acompanhado e, de longe, tenta encontrar os castanhos olhos em meio à multidão apressada. Desculpa-se pela paixão e se arrepende de não ter perguntado seu nome.

Segunda-feira, Julho 17, 2006

Adeus, paraíso

Então trocamos céu e terra por plasma e galáxias distantes, onde os sorrisos eram a maravilha, estupidamente sem sentido, assim como tudo naquele lugar. Fazia-se então a poesia do olhar, o saltar das aves e a dança das alegrias. Trocamos céus vermelhos por grama azul, flores por concreto, onde desajeitamos cidades e países, apenas para idealizar sem idéias. Inventamos deuses e diabos e demos as mãos para conclusões cravadas em rochas. Porque somos apenas pobres coitados andando para lá e para cá, todo dia, toda hora e todo minuto. O estar ficava desproporcional ao existir, e as borboletas se espalhariam com os gestos das mãos, rápidas e ágeis. Sopra-se o vento, onde se dá chance às criaturas marinhas e deságua nas ondas das praias. Simplifica o paraíso e o guarda na poesia, sem esquecer da maravilha arquitetônica do sempre. Voltamos às pernas da cadeira em que sentamos e caminhamos à cegueira monocromática do paraíso. Estavam pintados no quadro as conversas e os milagres das vozes que foram esquecidas, quando no murmúrio do vento foi castigado.
Existe o agora, não, não mais. Três maravilhas poéticas, sonoras e visuais se desfizeram com o soprar do vento, acabando com o existir do sentido e deslizando nos lábios o choro que cessou no funeral. Adeus, paraíso.

Sábado, Julho 01, 2006

O grande dia Miserável


Bebo mais uma xícara do negro café contido em meus lábios. Olho ao redor das montanhosas paredes e vejo a solidão contida na alegria esquecida, e só então me dou conta dos sorrisos da mesmice diária. Gole a gole, o quente anúncio de velhice põe-se à janela. Saudade, aperto a tecla no mesmo momento e contemplo as angústias vívidas em torno do avermelhado cobertor, meus olhos são iluminados pela força brilhante de músicas guardadas. Contemplo a infante imagem dos cordões mágicos e volto à realidade com o receio do tempo perdido. O velho choro se faz tranqüilo perante o sol lunar de vidas alegres e me chama do negro café a contemplar imagens. Quando acordo pela próxima vez, eu vejo não só a contemplação contida nos enigmas dos rostos contemplados, mas também a triunfante alegria vívida à pele. Degusto infielmente a ajuda do ontem, me faço ir a um colorido e alegre lugar, onde não há o hoje. Pregados às portas das casas, não foram esquecidos – marforio – e me pergunto por que construímos um lugar tão horrível.
Observo olhos cansados e vejo adiante um dia tão imbecil quanto o anterior, perdido em uma peste miserável da guerra. O infeliz olhar de desgraça da criança me diz que o fim do mundo é agora. Realmente foi.
Meu mosaico de sorrisos foi desfeito alegremente pelo ser infeliz, a peste miserável que corroía as câmaras incessantes das margens errôneas.
O problema não-filosofal que nunca saberemos a resposta: o fim.
Que importa se o dinheiro está em jogo?

Texto mal escrito; proposto às idéias imundas do dinheiro planetário, Terra. Se é que ainda é um planeta.

Quinta-feira, Junho 29, 2006

Mãos

Compreensão escapada em litros de álcool e noites inacabadas. Eclipses lunares em vão, às mãos dos bêbados noturnos. Neurose surtida em cores berrantes. Repara o silêncio dos gélidos lábios e chora a calmaria contida na decepção. Vê e toca um rosto, um estranho rosto que insurge em pétalas douradas no rio alucinógeno. Anima-se com indecisas decisões, falsas e impossíveis. Hipnose contida nas garras afiadas, presas às margens do rio vermelho. Aclama miseravelmente à peste escorregadia dos escândalos salvadores. Ri desesperadamente em memórias mortas, cobertas enevoadas da babaquice esplêndida. Morte sufocada pelos desejos alucinógenos, um rio a se formar e menos um ser vivente. Apenas menos um. Aclama a vitória que se esconde em tumbas egípcias misteriosas e pára na mesa, na garrafa fumegante, onde se chama a guerra pela paz. Santa e idiota guerra. Humanos contra humanos, rostos desfigurados, e todas as crianças se tornaram insanas. Explode no centro do mundo e dá fim ao bêbado juntamente à guerra. Triste e belo (?) fim. Mãos que deixam escapar o berrante alucinógeno alegre.

Sábado, Junho 17, 2006

Girassóis azuis


Texto apagado.

Terça-feira, Junho 13, 2006

Amigo

Porque eu vou entrar nos seus sonhos hoje à noite, nos daremos as mãos e sairemos voando por aí, sem rumo ou motivo. Coisa mais linda não há. Desculpe-me, mas minhas palavras não serão o suficiente para nos fazer voar. Então basta a voz timbrando as cantigas ditas pelos ofuscantes olhos. Vai ser para sempre assim, o velho e cômico apaixonado berrante. Foi a última vez que o ouvi, e foi um silêncio rápido e mortal. Fechou os olhos nas esquinas triunfantes da vida, planejando um futuro sem rumo. Daquele conjunto de palavras cantadas, sobraram só as fúteis invejadas. No quadro se escorreu a tinta roxa do paraíso, onde viveu feliz até que a morte nos juntasse. Na expectativa do borro desenhado, as linhas imaginárias e perfeitamente postas. Os batimentos cardíacos aumentavam, e tudo parecia florescer no local onde estava. Um momento de alegria constante corroía a cura dos sorrisos, deixando evaporar a fétida podridão enferrujada. Mais uma palavra dita no eco constrangedor, que não foi ouvida, sequer dita. Meu querido amigo, nós novamente vamos nos juntar depois de tanto tempo. Estamos no paraíso de um quadro, a tinta fresca desenha nossos sorrisos no infinito estrelar. Meu amigo, nós estamos mortos e juntos finalmente.

Quinta-feira, Junho 08, 2006

Sem sentido infante

... E as crianças brincam debaixo das árvores, pulam, correm, as crianças brincam.

Sem sentido sente-se casa sonhadora das crianças brincantes corredores terríveis. Sempre meninos e meninas a gritar cantigas infantes belas. Artes sonoras invadidas pelas casas terríveis corredores. Porque livre é o pássaro negro da discórdia, o pomo azul da vitória e a paixão vermelha ofegante. Depois vêm as gaivotas e seu mar amarelo merda cujas asas batem no descabido desconhecido. Bolas coloridas bonecas moventes carrinhos brilhantes. Beijos açucarados horripilantes melados. Maquiagem batom azul cabelo embaraçado.
Energúmenos sentidos: são assim.
Sem sentido saber ser sonhador.

Domingo, Junho 04, 2006

Fracasso total.

Sexta-feira, Junho 02, 2006

Yesterday

- Deixe-me abraçar o vento com você. – ele disse. Abraçaram-se ao som de bombardeios, temendo o último suspiro. O vento se calava fétido e reflexivo, tomando os olhos apaixonados, os braços entrelaçados; permanecendo até o momento no qual se separaram, deixando escapar uma branca luva de seda.
Vinte anos se passaram, deixando os personagens presos na solidão de suas lareiras, onde se queimam os vestígios anti-perenes. A luva não fora destroçada pelos anos, pelo contrário: continuara ali, com o cheiro de colônia e a lembrança sobreposta. Um último tragar antes da destruição e... Alguém bate suavemente à porta.
- Pensei que nunca fosse encontrar minha luva – ela estava bela e perfeita: olhos grandes, o cabelo em labirintos, lábios fixos, e para sua grande surpresa, usava a mesma colônia.
Um segundo milenar se passou pela cabeça dele, ficou ali mesmo, parado como estátua, tragando a solidão que o tempo acabara de devolver.
Abraçaram-se ao som de “Yesterday”, temendo o relógio parar e o último suspiro do velho que acaba de nascer.

Quinta-feira, Junho 01, 2006

Cotidiano espetacular

Circo dos sonhos, das mágicas triunfantes, alegrias tristes, vá e transforma-te em cinzas anis e desfaça-te com o vento.
Chega escarlate, a bailarina com seus suaves movimentos grotescos, a sedutora, os lábios quentes como Marte, o ardor chamuscado da rosa, a cama de seda. Joga o bailarino com tuas famas diplomáticas, canta, ó circo infeliz. Tango das músicas sortidas, que ofusca a menina-mulher, dá vida ao morto e chove no seco. Já diziam as palavras fétidas que era o começo do fim, era o final trágico.
Vai embora daqui, circo. Transpira sua vida e pula das velhas ruínas. Coma mais uma maçã do amor, menina, coma. Enrosca na garganta, a branca leitosa menina, a bailarina circunstancial alvirrubra, a tragédia da carne. Dançam imortais cantigas surdas, no círculo do ar, a bailarina, as bailarinas lindas, as lindas bailarinas.
Vai ao inferno, bailarina! Sapatilha tua discórdia e ímpeto, promove tua miséria e desgraça, veste o véu negro dos olhos, vê a insanidade contida na malícia, volta aos planos juvenis e pára com isso, bailarina obscena. Pára antes do teu filho, mate-o.
Xadrez perfeitamente escarlate, circo das águas ardentes, dos fogos perigosos e temidos, lamúrias achatadas, acaba de vez com a vida e a morte contida neste pequeno texto.
Que o espetáculo comece!
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Eu sei, eu sei. Tentando mudar o estilo dos textos.

Quarta-feira, Maio 31, 2006

Tribunal paradoxo

Porque o pecado veio com a raça humana desgraçada, porque ele não existe, e os dias fulminantes passavam com o fervor ambicioso das dádivas virgens. Penas dos pássaros brilhantes que ficaram no chão da terra, terra que a chuva lavou com o tempo, o esquecido tempo dela, tão imensa e formosa. Lex est commune praeceptum (apenas dos imbecis, claro). Cavalgaremos ao som de tambores e muita opressão, insanidade e maledicência. A vero domino dos cães absurdos, dos sinos surdos, da glória contida na euforia que será explodida com o sufocar das palavras. Ab immemorabili, quando éramos crianças felizes, justas injustas pervertidas lamuriadas, das riquezas inúteis, do tempo jogado fora. Repitam-se as lágrimas demasiadas dos bêbados, as “lágrimas de absinto”.
Enfim: Absque bona fide, nulla valet praescriptio, accendere discordiam.
Coisa mais besta, pregar latim em meus miseráveis textos, cheios de repugnância, rudes inválidos, então há de se escutar os tambores lascivos, as ruas baleadas pelas nuvens desconhecidas. Suaves manhãs violentas, perdidas na tela do quadro que foi borrado com a tinta. Meu bem, antes que seja tarde, feche os olhos e sinta o beijo molhado – não o meu, claro – e das pupilas saltitantes da morte vivida. Morreu feliz, talvez. Mas por ela, traiçoeira simpática, a cigana da vida, sem futuro ou presente, disse maravilhas aterrorizantes das explosões calmas e dos dias vermelhos, dias vermelhos, os dias azuis, embora da sã consciência para que possa lhe falar como uma quimera latejante do sino, se supõe que ela venha calma e abusiva, ora que por sua vez nunca será conseguida. Na gargalhada infeliz da infante que está na cela da prisão eterna, se ouvem os pedaços do coração do sino latejante.
Desgraça da graça, avermelha os dias e deixa passar o azul pela fresta, mande-o embora daqui! Coral que lindamente sonha com dias azuis avermelhados, nunca tão fervorosos e frios do paradoxo servil. Serves tu, ó pátria amada, minha idolatrada infundada que vai da licença poética até a liberdade do “pobre” rico. Em movimentos simples e perfeitos, minimalistas e crianças brincando nas praças, salva-te, ó liberdade.

Texto experimental.

Quinta-feira, Maio 18, 2006

Morango

Morango doce nos lábios vermelhos da menina, a rosa no cabelo e o cheiro de avelã contagiam o outono.
Agonia que pára na garganta e deixa avermelhar a bala cravada no peito. Céu cinza que era azul, eu vou te matar. Apenas mais um morto, só mais um – milhão – vamos matar. Guerra dos morangos doces e amargos, das viúvas da esperança e dos órfãos tristes, volta às manchas e construções. Mais uma chance, soldado: engula a glória da vitória e seja a vitória. No fim já não há mais purpurina, morango ou felicidade – ou coisa que o valha. Guerra que acorda no sonho do fascista e dorme no piscar dos olhos, na hipocrisia da mentira que agora é verdade.
Tumulto perene, coisa mais estúpida, certamente é o incerto. Durma criança, feche os olhos e veja a podridão agoniada nos olhos verdes. Durma para nunca mais acordar e calar o grito sufocante na garganta, a bala cravada no peito, a lágrima de amparo e desespero que acaba de escorrer, mais desespero, agonia, olhos, piscar, purpurina.
Morango dos lábios vermelhos, agora tão pálidos e secos, me deixe provar o seu sabor macio e iluminado. Ótima gustação, brilhante como poças de ébano.
Obcecado pelo amor ao dinheiro – eu vos controlo, pobres tolos – apenas mais uma criança deitará sobre tua cama antes do fim.
Menina dos olhos verdes, do cheiro de avelã, dorme seu sono tranqüilo e eterno.

Quarta-feira, Maio 10, 2006

Olho mágico

Das portas infinitamente fechadas, sem maçanetas, sem trancas, estas cujas alguém esbarra, cai em escadas abismáticas, insanas tolas. Olho mágico se fecha, abre e deixa cair o orvalho na rosa, mas não os pés molhados na porta do quarto. Paredes ocas que são tenazes e duras, lindamente reduzidas à poeira. Abismo infinito que não pára de cair. Pega as asas e voa tão alto que chega ao infinito desconhecido, onde as paredes são moles e transparentes. Oco seja miserável, ora repugnante rude. Mágica dos sorrisos tristes desmontados transforma pedras preciosas em papel, palavras em verdades mentirosas. Restritas cercas das chaves da porta, as cem chaves. Olho mágico que nos olhos curiosos, se abre e deixa cair o orvalho na rosa...
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Lixo, lixo...

Quinta-feira, Abril 27, 2006

O começo do fim

Tic-tac, ouve o incansável ruído irritante do relógio. São cinco da tarde, o sol poente brilha na janela do apartamento. Tic-tac, as horas se vão. Deixa a torneira da pia aberta e vai dormir. Acorda às duas da madrugada, reclama da casa molhada, abre a janela que vai para a sacada e se debruça sobre a grade.
Tic-tac, a hora não pára e a madrugada está fria. Volta, faz um café e olha desesperadamente o embaçado ponteiro do relógio. Não dava mais nomes para aqueles ponteiros, todos inúteis, apenas formando ângulos mais inúteis ainda. O Sol ascende, brilha como estrela da noite, mas não se deixa penetrar pela prisão de cimento e ferro.
Tic-tac, mais um final de tarde, a lua cheia está a se formar. Tic-tac, mais café, por favor.
Bebe o café, mas esquece que está às trancas. Livros, filmes, e o velho tic-tac do incansável ruído irritante do relógio.
As horas estão acabando, o velho tic-tac se torna mais lento e irritante. O tempo pára, mas o relógio continua com seu ruído. Agora não há mais cores, nem sabores, cheiros, ou umidade.
Tic-tac, está acabando, tic-tac, acabou.
Acorda e volta à sua rotina, sobre suas intermináveis grades de cimento.

Sábado, Abril 22, 2006

Lixo

Viajando pelas estradas esburacadas, cheias de pedras. Volta, vai, não se sabe onde vai parar. Mas que diabos! O céu agora é cor-de-rosa! Mundo podre e extraordinário, não? Viaja, viaja e não volta mais para essa terra imunda.

- Sem tempo nem inspiração para escrever. Te vejo algum outro dia, o que me dê muita vontade de cuspir as minhas lamúrias.

Sábado, Abril 15, 2006

A rosa de Hiroshima

Sem mais esta noite. Apenas amigos e lembranças. Apenas música.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas,
Pensem nas meninas
Cegas inexatas,
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas,
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas.

Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa, da rosa!

Da rosa de Hiroshima,
A rosa hereditária,
A rosa radioativa
Estúpida e inválida,
A rosa com cirrose,
A anti-rosa atômica.
Sem cor, sem perfume,
Sem rosa, sem nada.

Sábado, Abril 08, 2006

Porcos enjaulados

Nada ficou no lugar depois da briga, pratos e xícaras quebrados, talheres espalhados pelo chão. O retrato do beijo fervoroso ficou resumido aos cacos de vidro. As marcas de sangue na parede, destas, não esquecerão mais.
Para toda aquela linda atriz, haveria um homem, preso com suas garras afiadas às suas costas cansadas. A ânsia nunca passara desde que o vira enjaulado, na privada suja de merda, que ela limpou. “O cuspe, caro amigo, não teve gosto ou textura, foi apenas sórdido”, dizia em suas palavras imundas como a pestana, aquela mesma, que corroía as paredes da casa e deixava as moças desajeitadas.
A faca afiada usada para o crime fora delicadamente planejada, traço a traço, minuciosamente porca. Da moça lasciva que se dissera casta, sobrou apenas a mecha do cabelo vermelho – pintado. Ela sabia que ia morrer, desde os tempos do noivado, claro, sempre em seu jeito inverossímil. “A traição não lhe deu chifres, e sim belos dias afogado em cachaça”, segundo a traidora.
Morreu lentamente, aos gritos, mas não se deu o direito de chorar, morrera como deveria morrer. Foram dez chibatadas, nove facadas no peito, como uma espécie de ódio, ele, na tentativa de matar o cadáver.
Acordou na tarde seguinte, a camisa suja de sangue, bebeu seu café amargo e foi enterrá-la. O cuspe já não fazia diferença moral, mas seu ego aumentou ridiculamente a ponto de abrir um sorriso que lhe parecia justiceiro. Não deixou cair uma lágrima sequer, apenas o ódio ao cadáver, estraçalhando o estraçalhado. Na semana seguinte, ele voltou ao trabalho normalmente. “Ninguém se importava com ela mesmo” – dizia seu “amigo”.
A traição, caro imundo, não fora resumida a beijos e noites de sexo selvagem. A traição foi no dia em que chegou em casa e limpou a merda do enjaulado. O enjaulado, por sua vez, sentiu-se humilhado e inútil diante daquela cena.

Pôde, enfim, respirar como da primeira vez.

Terça-feira, Abril 04, 2006

Merda embebida em miséria cultural

Enfim, era para ser um bom texto - ou não.

Olhou seus olhos cansados e disse-lhe que seria a última vez que faria aquilo. As botas sujas e molhadas se misturavam com a dança da casa, flutuavam. Merda embebida em bobagens, sim, certamente era. Jogo da sorte, diria mais pro azar. Apostou a casa e as filhas. Já não era a última vez, quando no dia seguinte chegou, abriu a porta e caiu morto no chão.

Sábado, Março 11, 2006

A calada noite

Eu prefiro ser uma merda a ter tudo isso. Eu sou exatamente aquilo o que não querem que seja. Aquelas velhas opiniões formais, que vão para o inferno. Não voltarei a passar por aqui, nem vou olhar mais este corpo cheio de sangue. Daquele último beijo ousado que lhe dei, meu bem, só lembro dos seus olhos fixos em mim, em sua vida (ou morte), medíocre como sempre, mal vivida, aquelas palavras melosas, todas inúteis depois destes rabiscos.
Ainda me lembro do bilhetinho no papel vermelho, combinando o encontro na praça central à meia-noite, quando as águas sobem na calada da noite.
A bala que está em seu peito, meu bem, não dói mais. Não, não vou lamentar sua morte. Foi minha apelação, aconteceu; essas coisas acontecem todos os dias. Na banheira havia pétalas de rosas, a música ainda está ligada. Meu bem, juro que desejei isso com todo o meu coração coberto pela névoa dos seus pesadelos, sua morte fria, indolor.
Agora você não respira, portanto não sentirá meu doce cheiro novamente, não te submeteria a essa tortura. A praça está vazia, a rua também. Apenas meus passos curtos e rápidos fazem barulho. Eu ousei tirar toda a sua felicidade, e roubá-la para mim. No seu jeito inocente e fervoroso, eu mal lhe disse que na praça, tudo aconteceria. Eu te abraçaria muitas outras vezes, mas você quis assim. Sua morte ia ser muito mais dolorosa se eu não te ajudasse. Apenas vi ela atirar, fechei meus olhos, gritei seu nome. Aquela vadia da sua esposa fez isso com você, eu te avisei.
Meu bem, não me olhe com esses olhos fixos, a calada noite apagará os seus rastros.

Quarta-feira, Março 01, 2006

Sempre meninos

Meninos não amam
Meninos não choram
Meninos só brincam

Em suas intermináveis guerras
Os soldados são manipulados
E só brincam...

Meninos não fazem amor
Meninos não aclamam
Meninos só brincam

Meninos não viram homens
Meninos continuam meninos
E só brincam...

Recolhe-se no silêncio do olhar. Os anos já se passaram. A barba começa a crescer. Seus olhos não são mais perenes ingênuos, ele tem malícia e gosta de olhar os seios das meninas pela janela do banheiro da escola. Ele faz piadas, vê revistas pornográficas e perde a vergonha. Não lhe interessam mais os carrinhos desmontados, e sim as máquinas. Ele não chora, não sabe quem é, apenas tenta ser. Ele tem segundas intenções, e as terceiras também.
Ele volta da vida, só quer saber de farra, mas sua barba já cresceu, seu olhar nunca mais fora ingênuo, e ele já viu e tocou seios de muitas meninas. Já sabe quem é, ou apenas mente ser.
Ele cansado do seu trabalho, das farras, jamais dos seios das mulheres, ele com seus filhos meninos.
Ele velho, cansado da vida, aprendeu que sempre fora menino, e sempre será, até que a morte o leve embora, ainda menino.
Recolhe-se no silêncio da morte.
Tudo repete-se novamente, extraordinário tempo dos meninos.